As mensagens. E as mulheres do
mundo real-atual?
Francilene Brito da Silva
– Martina Mendizabal,
Mamadú Saido Djaló e
Elenita Maria Dias de Sousa Aguiar
Desde cedo, hoje – dia 08 de março de 2025 – recebo mensagens sobre o Dia Internacional das Mulheres. Em muitas destas mensagens, o mundo gira em torno de uma mulher tipificada como: frágil e forte, delicada e guerreira, suave e árida, sensível e resistente, instável e equilibrada, complexa e simples, ingênua e sagaz, insatisfeita e conformada, vaidosa e trabalhadora, dramática e acolhedora, medrosa e corajosa etc. e ainda há aquelas mensagens que acentuam a contribuição da mulher em algumas realidades e desenvolvimentos sociais. Que bom que aprendemos tantos adjetivos e reconhecimentos. Mas, é sempre bom lembrar que, todos estes são adjetivos para homens e pessoas não binárias, também. Portanto, não são típicos das mulheres somente. Então, o que dizer sobre “mulher” na contemporaneidade?
Hoje, diria que, na contemporaneidade, poderíamos nos perguntar: De qual mulher estamos falando? Ou melhor, de qual produção ou construção sobre mulher estamos nos referindo? E quem cabe dentro de cada construção? Além disso, podemos criar asas a partir destas construções? Esta “mulher” celebrada, pode amadurecer e autoconhecer-se? Criar asas? Voar?
Basicamente, o que percebo é uma força motora social que nos quer parabenizar e dar forças, mas que nos coloca num lugar vazio e nos tira o chão, mais uma vez, para nos manter com as amarras da imaturidade. Se escutarmos histórias de mulheres de nossas famílias iremos entender o que estou tentado explicar, enquanto mulher afrodescendente, filha, neta, bisneta de afroindígenas, rezadeira, periferizada, professora do Ensino Superior, pesquisadora e artesã da vida, que não tem filhos e nem é casada, cuidadora de um pai idoso portador de Alzheimer, que não dorme direito pela noite, etc. e tal. Neste lugar da escuta, vamos aterrissando e procurando o nosso chão para podermos alçar voos. Começamos a entender o que de fato estamos sendo e porquê, valorizando-nos e procurando celebrar e sonhar mais. Procuramos também entender que, se parte significativa da nossa história nos condiciona e violenta, podemos procurar saídas junto a outras pessoas e coletivos que nos acolhem e fortalecem. Mesmo achando que não temos saídas.
Buscar ajuda diante das nossas fragilidades e celebrar as nossas conquistas nem sempre foi fácil para algumas mulheres reais. Aprendemos nas entrelinhas das atribuições a nós dadas que somos uma fortaleza, especialmente se não estivermos o selo da branquitude, por isso não precisamos de ninguém. E, assim, por exemplo, estamos casadas e com filhos assumindo tudo por todos; ou ao conquistar diploma de Doutorado, não celebramos esta vitória. Aprendemos que todas as pequenas ou grandes conquistas que temos no trabalho, em casa, nas relações amorosas, e outras, não fizemos mais do que o necessário e o que deveríamos fazer. A cultura da escravização e da misoginia está no nosso DNA para algumas mulheres reais. Nesse sentindo, somos o algoz de nós mesmas. Mesmo sabendo que a cultura do masculino generificado, branco racializado e da heteronormatividade nos encurrala, preferimos não sair do (in)cômodo sofrimento e escolhemos lamentar ou açoitar outras irmãs, às vezes.
Não, não há uma mulher culpada. Não estou me referindo a quem tem culpa ou não. Assim, como não estou dizendo que as mensagens sobre o Dia Internacional das Mulheres não são bem-vindas. Estou querendo ir um pouco mais para o fundo do poço (onde considero um lugar de tecer a maturidade e do autoconhecimento). Estou dizendo, que quando encontramos mulheres que buscam amadurecer e sair do lugar costumeiro de vítima ou algoz, de desvalorização das nossas vitórias ou daquela que aguenta tudo, somos observadas com bastante desconfiança, inclusive por nós mesmas, desacreditando-nos.
Mas, a mulher real que me tornei, e que está em constante transformação, tem me ensinado que precisa criar asas, e estas não se ganha se culpabilizando ou culpabilizando as outras pessoas, não curtindo minhas/suas ações vitoriosas ou acentuando minhas/suas derrotas.
As transformações sempre causarão desconfortos, e a cultura colonialista-escravista-capitalista, na qual estou inserida, sempre nos fará procurar culpados ao invés de nos fazer enxergar o que fazer.
Entendo que buscar conhecer e compreender a(s) mulher(es) real(ais) nos faz começar a querer ver transformada também a sociedade em que vivemos, porque esta sociedade nos retira o chão quando nos promete o céu comemorativo de um dia da mulher. Mas, é a mesma sociedade que, quando eu, como uma mulher singular, alcanço céus de maturidades, irá me jogar em um chão dos “restantes” 364 dias do ano. E, nós, enquanto “mulheres” também somos esta sociedade.
Por isso, se você se considera um alguém que também colabora para ou é uma “mulher real”, te convido a comemorar-se durante 365,25 dias do ano, celebrar em datas especiais suas conquistas, encontrar-se consigo mesma no fundo do poço de suas memórias e deixar nascer asas de transformações. Mesmo que o direito ao voto pelas mulheres exigido em 1914, na Alemanha, tenha sido um marco para este dia 08, te convido a ir além. Te convido a buscar dar um voto de confiança no ser humano singular que és e quebrar votos de adjetivos embalados pela industrial da generificação social atual. E, criar seus próprios adjetivos.
Numa digressão, mas ainda por dentro do tema, Mamadú Saido Djaló pergunta: Afinal, de quais mulheres se está falando nesta data comemorativa de 08/03?
A oficialização dessa data em 1975 pela ONU mostra claramente como tudo o que vem do Ocidente é universalizado (forçado) para que o mundo inteiro comemore.
Quando o Ocidente concebeu e forçosamente universalizou essa data, a nossa humanidade, enquanto Afrikanus e seres humanos, estava sendo violentada pela ocupação colonial ocidental no velho continente.
Havia milhões de mulheres afrikanas sendo assassinadas, estupradas e sistematicamente exterminadas enquanto pessoas escravizadas. Mas aí ninguém quer falar sobre…
Sem encontrar culpados, mas querendo criar asas, é bom também lembrarmos o porquê de celebrarmos este dia. Que comemoração é esta que as mensagens comerciais não falam mais e como o “resto” do mundo encara isso? Deixo esta investigação para aquelas/es que chegaram ao final deste texto.
Porque agora, Elenita Dias poetizou
MULHER, VOCÊ É DEMAIS!
Mulher és um SER de suprema beleza,
seja interna, externa, bem como de outras nuances...
Você é existência e se torna resistência, deixa marcas – Quantas marcas?
Nossa, são quantas e tantas, não dá para especificar! Cada uma de nós deixa marcas...
sociais, educacionais, pessoais, de vida, MARCAS que IMPORTAM, a NÓS, por NÓS, e aos outros seres humanos, perpassam sensibilidades e transformações.
Inspiração é parte de ti, do teu SER MULHER, sendo você...
Entre os que defendem e lutam por igualdade, estás, empodera-se e vais “lutar pelo que acredita...”.
Dás importância significativa às lutas e pelas lutas! Conquistas mudanças, fortalecendo, incluindo, vendo, vivendo e sendo o que és!
Tua sabedoria, seja do senso comum, ou de outra natureza, é diversificada, se chama CORAGEM!
A justiça ainda falha nos tratamentos desiguais, mas a vida segue, os diálogos se entrecruzam, não deixemos de buscar, de valorizar-nos diante de...
Os desafios fazem parte da caminhada chamada VIDA! Desafie-se, lute, vá adiante, tenha voz ativa, acredite, VOCÊ PODE!
Fortalecimento! Fortalecimento!
Com carinho e tentativas de amadurecimentos,
Francilene Brito da Silva – Martina Mendizabal,
Mamadú Saido Djaló e
Elenita Maria Dias de Sousa Aguiar
Teresina, 08 de março de 2025.